O crack da atenção (ou: até onde vale o meme?)

No post anterior, eu fiz uma experiência quase científica.

Na primeira vez em que tuitei o link, dando o título, ele teve uns 20 acessos. Na segunda vez em que tuitei, usei a frase de conclusão – sobre pára-choque de caminhão versus modelo de negócios. Mais uns 30 acessos. Na terceira, chutei o balde e apelei geral:

@msoares Veja o encontro da Luiza do Canadá com o Daniel do BBB: http://bubot.com/9d534

O resultado: 2.175 acessos até agora há pouco.

[EDITADO: Neste post de agora, tuitei com o título e deu 9 acessos. Agora citei os memes. Vejamos.]

Eu nunca tinha feito esse teste. (Até porque, como eu falei no post anterior, eu curtia heavy metal no auge do pagode mauricinho.) Durante anos critiquei portais por cobrirem tanto os reality shows. Porque são assuntos bobos mesmo. Porque essa cobertura se retroalimenta. Porque atenção é escassa, e isso desvia atenção de coisas mais importantes. Etc, etc, etc. Fiquei impressionado pelo resultado. Entendi por que tanta insistência.

Isso basicamente comprova uma coisa importante sobre os memes: eles são algo altamente comunicativo. (Oh!) Isso tem implicações sérias na economia da atenção. Consequências semelhantes às do crack, por um lado, ou parecidas com a de um ônibus, por outro.

O problema é que, tal como o crack, isso dá um resultado muito forte, muito rápido. Tal como o crack, o efeito dura pouco. Para manter o resultado forte, você precisa de mais. E mais. Por isso, o risco ao entrar nessa onda dos memes é acabar virando um “noia”.

No livro “Amusing Ourselves to Death“, de 1985, Neil Postman já alertava sobre isso. A tradução é minha:

“Existem duas maneiras pelas quais o espírito de uma cultura pode ser apequenado. No primeiro – o orwelliano -, a cultura se torna uma prisão. No segundo – o huxleyano -, a cultura se torna um burlesco.”

Postman segue carregando mais ainda nas tintas, e eu não sei se concordo com ele em todo o grau. Acho que não. Tendo a concordar mais com o que Umberto Eco disse em entrevista recente à Época, lembrada pela Nanni Rios: precisamos é desenvolver filtros (e é para isso que o Bubot servirá).

Isso porque, ao mesmo tempo, existem boas justificativas para pegar carona nos memes, dependendo de como se pega carona. São assuntos sobre os quais realmente boa parte do público quer ler. São assuntos que, justamente por sua natureza, rendem reflexões interessantes quando uma boa cabeça entra no assunto (nunca deixo de ler as coisas que o André Forastieri escreve sobre o BBB, por exemplo). Nesse sentido, os memes são um ônibus.

Memes não são necessariamente ruins ou bons por si. São pedaços de informação que se replicam.

James Gleick, no livro “The Information“, traça uma história do conceito de meme (apenas o capítulo relevante saiu na Smithsonian Magazine e foi traduzido no Estadão). Criado pelo biólogo Richard Dawkins, o conceito de meme é mais ou menos o mesmo que um vírus, só que de informação. Ele se replica e se recombina. Gleick observa (também em tradução minha):

“A maior parte da biosfera não pode ver a infosfera; ela é invisível, um universo paralelo que borbulha com habitantes fantasmagóricos. Mas eles não são fantasmas para nós – não mais. Nós, humanos, sozinhos em meio às criaturas orgânicas da Terra, vivemos nos dois mundos ao mesmo tempo. É como se, após coexistir por muito tempo com o não-visto, tivéssemos começado a desenvolver a percepção extrassensorial necessária. Estamos cientes de muitas espécies de informação. Nomeamos seus tipos ironicamente, como se para nos reassegurar de que as compreendemos: mitos urbanos e mentiras-zumbi. Nos as mantemos vivas em centros de dados com ar condicionados. Mas não podemos dominá-las. Quando um jingle gruda em nossos ouvidos, ou uma febre vira a moda de cabeça para baixo, ou um boato domina os assuntos no mundo por meses e some tão rapidamente quanto chegou, quem é o mestre e quem é o escravo?”

Isso significa que, dependendo do uso, memes ganham relevância.

Você pode achar a música do Michel Teló muito tosca, mas ela diz respeito à cultura brasileira e ao momento socioeconômico do seu público de uma maneira muito íntima. Nada fica popular desse jeito muito artificialmente. E por que será, exatamente? Não sei, mas suponho. Em sua simplicidade, numa entrevista para a Folha, ele disse que canta “a realidade da minha galerinha da balada”. Que realmente só quer ouvir “eu te amo” e “open bar”. É o que Tolstói dizia: queres ser universal, canta tua aldeia.

Você pode não entender qual é a graça do meme da Luiza, que estava no Canadá. Não estará sozinho: eu e o André Jaccon, nosso ninja de programação no Bubot, também não entendemos. Mas essa história diz respeito a questões mais amplas também: ostentação, deslumbramento, especulação imobiliária, a própria lógica vazia das celebridades instantâneas ou mesmo, como quiseram as agências de turismo, sobre a mera existência do Canadá. Rendeu até demissão de um assessor na Presidência da República.

Em alguns casos, memes são informação. Memes também servem como ônibus de informação, quando ajudam a levar outras ideias adiante. Não fossem o Daniel do BBB e a Luiza do Canadá, o post anterior nunca teria chegado à esmagadora maioria dos que leram. Mas memes também podem virar crack informativo, quando usados em si e por si.

Se ignorar completamente, por princípio, perde-se informações que podem ser relevantes. Se mergulhar de cabeça, perde-se o foco no que é importante e vira um dreno de atenção. Nas palavras do mestre André Forastieri:

Assistir ou não o BBB é como ouvir ou não Michel Teló, ou questionar a eterna popularidade praiana de cerveja e picolé. Assuntar sua validade estética é discutir o sexo dos anjos. O BBB é um vendaval sazonal, como o El Niño. Sopra forte todo verão. Tentar fugir ou ignorar é fútil.

Gostaria de ouvir sua opinião. Qual é a medida para você?

Conte aqui nos comentários.

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Publicado em 20/01/2012, em Curadoria e marcado como , . Adicione o link aos favoritos. 4 Comentários.

  1. Pra mim, meme é um instrumento. Um simples instrumento pra qualquer coisa. Como eu dizer, por exemplo, “FFFFUUUUUUU”, ou aprontar alguma e colocar aquela carinha linda do troll. Tenho um app no iPhone, “Rage Faces”, que elimina algumas tecladas minhas em mensagens.

    E só uso isso, claro, pra diversão.

    Claro, tem gente que exagera. Postar o “encontro da Luiza com o Daniel BBB” é um exemplo claro do exagero (e eu sei que você fez de propósito, mas o tanto de clicks prova o que falo).

    Esse da Luiza irritou pelo tanto que foi usado. Mas foi, no mínimo, genial aquela manchete do Meia Hora. “Todo mundo só fala nisso”, sobre o caso do Daniel do BBB, “menos a Luiza que está no Canadá”.

    Um instrumento, uma simples brincadeira.
    Falou de algo que todo mundo fala, usando algo que todo mundo fala.
    Foi, aliás, muito inteligente (como eu considero todas as manchetes do Meia-Hora, o NP desses novos tempos), ao contrário do que o Nascimento disse.

    Ele acabou levando a sério demais. Eu não vi ninguém deixando de falar algo importante pra falar sobre a Luiza. No máximo, a colocaram na coisa toda. E, pra mim, tudo bem. 🙂

  2. “Criado pelo biólogo Richard Dawkins, o conceito de meme é mais ou menos o mesmo que um vírus, só que de informação” (…) Meme não é coisa do Timothy Leary?

  3. Sim, a ideia do exagero foi justamente testar como funcionava, estudar o efeito. Era consciente que era apelação.

    É especialmente valioso ter a tua opinião aqui nos comentários porque poucos conhecem o mecanismo dos memes tão bem quanto tu.

    Acho que o comentário do Nascimento foi populista. Jogou pra autoimagem da plateia. A coisa é mais complexa do que ser inteligente ou não.

    Sem falar que quando ouvi o “já fomos mais inteligentes”, primeiro pensei “ué, quando?” e lembrei de duas coisas.

    A primeira é um causo do Carlos Lacerda na cadeia, durante a ditadura. Ele quis fazer uma greve de fome e um colega de infortúnio retrucou: “Carlos, deixa disso. Você quer fazer Shakespeare no país da Dercy Gonçalves”.

    Sempre achei graça, mas compreendi o que significava vendo o seriado da Dercy na semana passada.

    Em certo momento ela vai montar a Dama das Camélias, de Alexandre Dumas Filho. O diretor reclama que ela não está passando os conflitos psicológicos da personagem. Dercy: “que conflito psicológico o quê, porra! Era uma puta cheia de pereba…”

    A cultura popular é o que é, enfim, e não o que teria sido num imaginário futuro do pretérito. A questão é o que fazer com isso, reconhecendo que ela é assim e não de outro jeito.

  4. Thiago, não sei. Sei que o Leary usava muito o conceito, mas não sei desde quando. O Dawkins comparou as propriedades dos memes às dos genes em 1976 no livro “O Gene Egoísta”. Como deixo claro no post, estou me baseando na (até onde eu tenha notado impecável) pesquisa do James Gleick.

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