Fatos, boatos, fontes e a importância dos filtros

No momento em que escrevo, a Polícia Militar de São Paulo está numa ação para desocupar a favela do Pinheirinho, em São José dos Campos. Com seis mil moradores sendo despejados, A favela ocupa um terreno que pertence à massa falida das empresas do especulador Naji Nahas, de farta memória.

Quando foi decidido judicialmente que seriam despejados, os moradores improvisaram um exército de Brancaleone para defender suas moradias improvisadas, que rendeu uma das fotos mais impressionantes que já vi no jornalismo brasileiro:

Fatos confirmados: a polícia está inaceitavelmente violenta. Bastante gente foi vista ferida e sangrando. A polícia não deixa jornalistas ou mesmo parlamentares se aproximarem do local.

Boatos: vários. Incluem rumores sobre mortes, nunca confirmadas. Falaram em sete, mas que podiam ser cinco, com algum desconto podiam ser duas ou até mesmo uma. A prefeitura fala em apenas um ferido à bala confirmado – o que é bem menos do que se falou. Muita gente sangrava, mas podia ser por porrada ou bala de borracha. Pode ter morrido alguém? Até pode, mas ninguém conseguiu confirmar. No meio da confusão, é fácil confundir ferido com morto.

Está difícil quem está lá se aproximar, enfim, porque a polícia está pegando pesado. Uma amiga jornalista que está no local teve de respirar gás lacrimogêneo agora à tarde.

Quando um leitor que me acompanha desde os tempos da MTV me pediu pra retuitar uma manifestação contra a “carnificina”, observei de cabeça fria que não dá pra falar em carnificina sem que se saiba de mortes confirmadas. “Isso não melhora a situação, mas também não a piora”, observei. Porque não precisa morrer gente para aquilo ser abusivo.

O leitor ficou irritado: “Não fale do que não sabe!”

Mas era justamente isso que eu fazia. Não falo do que não sei. Conheço alguns jornalistas que estão lá tentando cobrir a questão, tentando saber o que está rolando além da muralha da polícia. São sérios – esse papo de “imprensa golpista” é ridículo. A situação já é feia o suficiente só com o que já se sabe com confirmação.

Morte e prisão não são questões de opinião, enfim, e dar vazão aos boatos mais desvairados não colabora com quem quer repudiar a situação. Pelo contrário: é leviano e desmoraliza quem acusa.

O que eu acho mais complicado é que quem mais se aferra aos boatos é quem mais acusa a imprensa de leviandade. Que ela tem defeitos, tem. Mas quando ela se preocupa em checar antes de publicar, está apenas fazendo seu trabalho. O trabalho, aliás, que noutras circunstâncias essas mesmas pessoas cobram que faça.

Existem boas fontes de fora da imprensa tradicional no local. Vale a pena ficar de olho nelas.

Leonardo Sakamoto, da ONG Repórter Brasil, é um sujeito que nem os mais exaltados chamariam de “golpista”. Em seu Twitter, em nenhum momento ele deu vazão aos boatos. Manifestou preocupação e foi para o local. Foi barrado pela PM, como todos os jornalistas que foram até lá. Quem conhece seu trabalho, em seu blog ou na organização que lidera, sabe que poucos se preocupam tanto quanto ele com as consequências da violência policial. Mas nem por isso ele dá pernas a boatos que carregam nas tintas. Seu comentário mais forte a respeito: “Uma ação como essa nunca poderia ser feita em final de semana por precarizar a defesa. Há leis que impedem isso.”

Outro cara com perfil e preocupações semelhantes às do Sakamoto é Felipe Milanez, profundo conhecedor da causa indígena. Ele também foi ao local. Passou o dia inteiro postando no Twitter fotos da violência que presenciou. Relatou casos de moradores feridos, inclusive um velhinho de 70 anos que acordou apanhando da polícia. Relatou casos de gente presa com truculência. Em nenhum momento deu vazão aos boatos. Contou apenas o que apurou.

O deputado Ivan Valente (PSOL-SP) é outro que foi até o local e foi barrado pela polícia. A boataria do Twitter dava conta de que ele teria sido preso para não falar com os moradores. O site Última Instância foi entrevistá-lo. Nessa entrevista, o deputado negou que tenha sido detido. Ele não teria motivo algum para poupar a polícia de críticas, caso de fato tivesse sido detido.

***

E o que o Bubot tem a ver com isso?

Todo dia, somos bombardeados por informações de todos os lados. Seja da TV, rádio, jornais, sites, redes sociais ou conversas com amigos.

Nos canais do Bubot, fazemos uma seleção das fontes mais interessantes sobre o assunto, representando os pontos de vista mais diversos. Todas misturadas no mesmo lugar, para você ter acesso a relatos que se complementem e formar a sua própria opinião.

Escolhemos com cuidado essas fontes. Popularidade não é um critério muito relevante, nesse sentido. Há dezenas de blogs altamente populares que vivem de reproduzir na base do copy-paste o que saiu em outros. Esses a gente ignora. Preferimos ir direto à fonte.

Mas não nos cobrem compromisso com boatos. Nosso negócio é honestidade intelectual.

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Publicado em 22/01/2012, em Curadoria. Adicione o link aos favoritos. 10 Comentários.

  1. Marinha Luiza

    Falou tudo!
    As pessoas cobram muito. E se a imprensa divulgar dados errados? Será considerada golpista de novo.

  2. O mais importante é o seguinte:

    * Não existe uma fonte só, existem várias. Vale a pena ler várias antes de formar opinião. No mínimo, cada uma viu algum detalhe que a outra não viu.

    * Mesmo uma reportagem incompleta é melhor do que um completo boato.

  3. “boatos: vários. Incluem rumores sobre mortes, nunca confirmadas. Falaram em sete, mas que podiam ser cinco, com algum desconto podiam ser duas ou até mesmo uma.”

    Se for o meu filho, meu nãopai, mau irmão, minha mãe que me importa o resto?

    A dor a perda são facilmente contabilizados quando se referem a desconhecidos na televisão ou nos jornais. Um ente querido proximo? Ai sim sabemos quantificar a dor, que semre e uma perda irreparavel. E se temos que aguentar sensacionalismo quando das bobagens envolvendo atores, cantores e famosos em geral. a imprensa pode ser sensacionalista por um causa tão boa quanto dar voz aos excluidos

    • Imagine se você tem parentes lá e está longe. O boato diz sete mortos. Como fica sua apreensão enquanto fica pensando se entre eles está seu filho, seu nãopai, seu irmão ou sua mãe?

      Boato NUNCA é bom. NUNCA. Tem abusos suficientes pra denunciar. Não precisa inventar novos.

      Sempre que vejo esse tipo de boato, sério, a impressão que dá é que o povo torce pra alguém morrer.

      A indignação moral é a mais barata das moedas.

  4. Teve um caso na favela paraisipoles, policia invadiu, sentou o cassete numa blitz, teve uma revolta popular, policia sentou ainda mais o cacete e com o argumento “não podemos generalizar, vamos analisar todos os fatos antes, não façam sensacionalismo”, a imprensa foi coagida e se tornou a policia contra bandidos que estavam usando os moradores da favela em troca de cestas basicas.

    Isso ao vivo pela radio bandeirantes. A primeira informação havia sido da revolta da população contra a violencia policial, e horas depois tinha a “tal” convocação das “milicias” da favela aos moradores com a promessa de cestas basicas.

    Toda midia embarcou na historia. E o morador que pode ter morrido devido violencia policial? Vai saber.

    pra terminar.

    Nos vivemos num pais onde as pessoas lutam pela manutenção do status quo, “ficar como ta pra ver como fica”. Onde o bem privado esta acima do bem estar social, e isso e uma verdade

    • Dois erros justapostos não chegam a compor um acerto. E boatos simplesmente não resolvem nada, ora. Qualquer um que queira justiça deveria querer no mínimo a verdade como instrumento.

  5. Olá Marcelo,

    Meu nome é Bruno, sou estudante do Cefet/MG e acompanho alguns movimentos sociais, inclusive e indiretamente este de Pinheirinho, que me deixou muito chocado e triste. Eu, como a grande maioria das pessoas que buscam notícias sobre este caso, o faço através das redes sociais e dos portais de notícias.

    Eu entendo a preocupação com boatos que se passam em situações como esta, justamente pelo fato de que acabam tendo um efeito contrário ao que se pretendia: desmoralizar uma causa ao invés de promovê-la. Mas tenho algumas considerações a fazer a respeito das informações percebidas por mim através das redes sociais :

    1) Como a PM impediu a entrada de jornalistas, a observação dos fatos ficou muito prejudicada, a maioria das informações que eu recebi, por exemplo, veio de ativistas que estavam no local e que por sua vez as recebiam de moradores ou pessoas próximas, que não sabiam ao certo o que ocorria devido à forma violenta e repentina com que a PM entrou na ocupação. Essa restrição à circulação de informações por si só já é um grande fator para a disseminação de boatos;
    2) As informações sobre mortes, embora imprecisas e não confirmadas pela PM tampouco pelo governo do Estado, são muito preocupantes. Embora eu não tenha condição alguma de saber ao certo se ocorreram mortes ou não, baseado apenas em relatos pessoais e em uma informação prestada por um representante da OAB de São José dos Campos e que foi desmentida pela prefeitura do munícipio (http://agenciabrasil.ebc.com.br/noticia/2012-01-23/oab-de-sao-jose-dos-campos-diz-que-houve-mortos-em-operacao-no-pinheirinho) (http://agenciabrasil.ebc.com.br/noticia/2012-01-24/autoridades-negam-que-tenha-havido-morte-durante-desocupacao-em-sao-jose-dos-campos), e conhecendo a “fama” de violação de Direitos Humanos por parte de nossa polícia e de conivência das autoridades, não seria nem um pouco fantasioso supor que sim, ocorreram mortes e que estas podem ter sido ocultadas. Como a circulação de informações ficou prejudicada, a imprensa deveria confiar menos em relatos oficiais e poderia cobrar uma investigação séria sobre o caso;
    3) Penso que a investigação das notícias de mortes deveria ser independente. Não penso que esta investigação deveria ficar a cargo da polícia ou de algum órgão governamental por estarem envolvidos no caso. Tampouco o Judiciário, devido à demora processual característica e também estar envolvido na situação. Penso que poderia ser conduzida por entidades independentes como a OAB e o Ministério Público e acompanhada por entidades que representam os ocupantes e as supostas vítimas, e deveria ocorrer de forma mais rápida e transparente possível porque ainda acontece, ainda há um conflito e é necessário romper com a restrição de informações sobre as ações da PM para evitar que o que ainda se especula se torne um fato consumado.

    Isto é o que eu considero, e independente de terem ocorrido mortes ou não, eu ainda apoio a luta dos moradores de Pinheirinho contra o que eu considero uma crueldade por parte da polícia e do Poder Público, e que se pensarmos bem, começa com o descaso em que viviam antes mesmo da ocupação do terreno.

    Saudações!

    • Prezado Bruno,

      Eu li a declaração do advogado – que, casualmente, é o representante das famílias despejadas. O que ele diz é que ouviu dizer mas não conseguiu confirmar. Na prática, emprestou a grife da OAB ao boato. Depois que isso apareceu, a OAB de São José dos Campos soltou nota dizendo que só quem fala por ela é seu presidente.

      Não duvido dos extremos a que pode chegar a violência policial. Mas morte não é questão de opinião. Morto costuma ter nome -e, quando é criança, deve ter pai ou mãe. Ele, como advogado das famílias, poderia ter acesso a quem deu pela falta de um filho, por exemplo, e fazer uma lista de desaparecidos.

      O fato é que não há informação.

  6. lunegabriel escreve:” devido à forma violenta e repentina com que a PM entrou na ocupação”. Violenta, nem discuto. Mas repentina? Há oito anos o caso anda e desanda na justiça. e você diz “Quando foi decidido judicialmente que seriam despejados, os moradores improvisaram um exército de Brancaleone para defender suas moradias improvisadas, que rendeu uma das fotos mais impressionantes que já vi no jornalismo brasileiro”
    Então, repito: repentino como? Comentários desse tipo, que afrontam a realidade, maculam a opinião contrária.

    • Os caras foram pegos de surpresa, logo ao acordarem, não foram? Certamente eles sabiam que vinha a polícia ali, mas dificilmente imaginaram que seria às seis da manhã.

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