A câmara de eco das notícias-zumbi

Uso o Google Reader como meu leitor de RSS favorito já há alguns anos. Nas épocas de maior voracidade informativa, eu chegava a assinar 700 feeds diferentes. Alguns atualizavam várias vezes por dia, outros só de vez em quando. Sempre fiz questão de não assinar feeds “cheios”, como os feeds com todas as notícias dos portais.

Claro que eu não lia tudo, mas tinha um termômetro bastante completo do jornalismo online brasileiro. Conseguia me irritar muito com algumas práticas. O @viniciusduarte comentou no Twitter uma das que mais me irritam: trombar várias vezes com o mesmo texto, ainda que em feeds diferentes.

Isso acontece especialmente com o material da BBC Brasil. É um material de qualidade, disponível de graça para quem entra no site, mas que praticamente todos os portais republicam. Por contrato, quem vai republicar material da BBC Brasil não pode mudar uma palavra sequer. Geralmente nem o título. Azar o de quem lê vários feeds, enfim.

Acontece com mais frequência em casos de notícias bizarras como esta:

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Dá clique pra caramba, mesmo. Aí todo mundo copia e cola:

Folha.com – Sul-africano diz ser cantor ‘morto’ sequestrado por zumbis

Estadão – Sul-africano diz ser cantor ‘morto’ sequestrado por zumbis

UOL Notícias – Sul-africano diz ser cantor ‘morto’ sequestrado por zumbis

G1 – Sul-africano diz ser cantor ‘morto’ sequestrado por zumbis

OK, o Terra desafinou o coreto, mas deu a mesma matéria:

Terra – Cantor ‘morto’ reaparece e diz ter sido sequestrado por zumbis

Todos eles, honestamente, atribuíram a notícia à BBC. Ninguém pode acusá-los de plágio, apenas de fazerem uma câmara de eco. A coisa começa a ficar complicada quando chega a segunda onda de controlcê-controlvê: a Tribuna da Bahia copiou a notícia e atribuiu ao Terra. Problema da Tribuna da Bahia, ou da BBC, você dirá. Quase tanto faz, porque é uma história bobinha mesmo, sem maiores consequências.

É uma das faces – a face benigna, digamos assim, do que Nick Davies chamou de “churnalismo” no livro “Flat Earth News“. Escrevi a respeito aqui. O problema é que nem todas as faces do churnalismo são assim inocentes.

***

Mas e quando a coisa é mais séria? Bom, aí se cria uma cadeia de verificação difícil de seguir na hora de checar uma informação duvidosa. O problema é o efeito câmara de eco, quando informações-zumbi se transformam em “fatos” pelo simples fato de serem repetidas. As redes sociais criam amplas oportunidades para isso.

Notícia-zumbi foi o que apareceu nos dias que se seguiram à expulsão dos moradores da favela do Pinheirinho, em São José dos Campos.

Eu comentei aqui o assunto em outro post no dia em que a ação ocorria. Nas redes sociais, boatos sobre mortes ocorridas no local se espalharam feito fogo no álcool. Repórteres que eu respeito foram lá e não conseguiram confirmar nenhum deles. Sofreram muitas restrições para chegar ao local, mas tudo o que conseguiram apurar foi que havia boatos de mortes. A operação parece ter sido um desastre em termos de respeito aos direitos humanos. Não faltaram elementos verificáveis para publicar e mostrar a dimensão da coisa. Não precisava haver mortes para aquilo ser um absurdo.

Morte é uma coisa muito séria, não é uma questão de opinião. Um repórter que preza seu trabalho apura antes de publicar uma coisa tão grave. Até porque no meio da confusão é fácil alguém confundir de boa-fé ferido com morto. É trabalhoso, mas dá pra tentar checar: morto costuma ter nome ou família ou amigos, que costuma dar pela falta do parente. O melhor procedimento para checar é tentar levantar uma lista de desaparecidos e ir atrás de quem é próximo deles. Era assim que se fazia na ditadura, foi assim que se fez quando desabaram os prédios no Rio. Soube que alguns colegas com quem trabalhei na Folha fizeram isso, e todos os dados como desaparecidos estavam próximos a suas famílias.

No dia da ação, uma parcela ruidosa da tuitosfera acusava a imprensa de estar “escondendo” as mortes. Virou Fla-Flu.

Essa parcela incluía alguns repórteres, alguns inclusive a quem também respeito e com quem me dei ao trabalho de dialogar, que julgavam ser dever da imprensa noticiar que houve boatos. Mais ou menos do mesmo jeito como passou a ser dever da imprensa noticiar cada bocejo da Luiza, que estava no Canadá.

Um dia depois da ação, a Agência Brasil – pertencente ao governo – foi o primeiro meio de comunicação mais sério a publicar que houve mortes. Ela atribuía a afirmação à OAB de São José dos Campos:

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Quando se lê a notícia com um pouco mais de atenção, salta aos olhos uma declaração:

“Nós estamos fazendo um levantamento no Instituto Médico-Legal [IML], e tomando as providências para responsabilizar os governantes que fizeram essa barbárie”, disse o advogado. Para bom leitor, isso significa claramente que a OAB também não tinha confirmação sobre as mortes. Se “está fazendo” um levantamento, é porque ainda não concluiu.

Curioso, procurei descobrir no Google quem era o advogado. Seu nome aparecia em notícias de um jornal local como advogado da favela. Achei peculiar: quando deu a entrevista ele usava o chapéu da OAB para dar a grife da Ordem ao boato de domingo, sendo que ele teria acesso suficiente aos moradores para compilar uma lista de desaparecidos. Como advogado das famílias, ele já tinha legitimidade suficiente para dar entrevistas. Não precisava dar a grife da OAB ao boato. Mas qualquer um que conheça minimamente como funciona a lógica de uma redação sabe que um crachá faz toda a diferença.

Como a Agência Brasil disponibiliza seu conteúdo para republicação gratuita, muitos portais foram atrás. Dez minutos depois da publicação, o UOL republicou o texto. Mais tarde no mesmo dia, o portal editaria incluindo apuração própria. Vinte minutos depois da publicação, o Terra dava um título sóbrio, que refletia o grau de incerteza expresso pelo próprio advogado: “OAB apura denúncias de mortes em ação da PM no Pinheirinho“. Uma hora depois da publicação na agência, a Istoé subiu o tom: “OAB de São José dos Campos registra mortes em Pinheirinho“.

No fim, era uma notícia-zumbi.

Ao longo das horas, a OAB de São José dos Campos afirmou que o advogado não tinha autorização para falar em nome da instituição. O UOL registrou que a declaração do advogado não era bem uma confirmação das mortes. Editou a notícia. A Agência Brasil ouviria o outro lado no dia seguinte, registrando que “Autoridades negam que tenha havido mortes durante a desocupação em São José dos Campos“. A revista Fórum conseguiu ouvir o advogado e ele se retratou da declaração.

Isso não acabou com a câmara de eco. Um deserdado da noção chegou a se acorrentar em frente à Rede Globo, anunciando uma greve de fome para ver se a Globo falava que houve mortes no Pinheirinho. Só que não é assim que funciona, né?

Nesta segunda, duas semanas depois da publicação da notícia, a coluna do ouvidor da Agência Brasil registrou o erro:

É comum na rotina jornalística não se averiguar, pelo menos de imediato, a informação quando esta é prestada por uma fonte considerada de fé pública. Talvez, por isso, a notícia veiculada pela Agência Brasil no dia 23 tenha atribuído legitimidade à informação, por ter sido prestada por um representante da OAB. Mas, no caso específico desta notícia, a informação, apesar de declarada por uma voz autorizada, não correspondia à realidade dos fatos. Neste sentido, a Agência Brasil errou ao publicar uma informação que não foi apurada, mesmo que ela tenha sido declarada por uma fonte legitimada.

Isso foi seguido por um texto mais detalhado, incluindo vídeo. Um trecho dá a noção do que ocorreu:

A entrevista foi gravada por uma equipe da TV Brasil que se deslocou para São José dos Campos, mas a parte que denunciava a morte não foi utilizada no noticiário televisivo por falta de confirmação ou comprovação. No entanto, a reportagem da Agência Brasil em São Paulo teve acesso à íntegra da gravação e considerou a informação relevante e suficiente para ser publicada, tendo em vista o advogado ter se apresentado como representante de uma instituição respeitável.

Agência Brasil, embora tenha atendido a exigência de identificação da fonte da informação, não seguiu os demais procedimentos da boa prática de apuração, como recomenda o Manual de Jornalismo da Radiobrás, que ainda está em vigência.

Ou seja: os repórteres pegaram informação fora de contexto, de segunda mão, que aparentemente sequer foi usada por quem captou originalmente, e publicaram sem mais apurar.

Para muitos repórteres, porém, apurar é basicamente ligar o gravador e anotar o que pessoas com cargos dizem. Na dúvida, a responsabilidade pela afirmação recai sobre quem falou e o repórter lava as mãos sobre a veracidade. É verdade que a pessoa com um cargo disse o que está anotado que ela disse, e fica por isso mesmo. Pra muita gente boa já está bom o suficiente para ter o que publicar. Quando é controverso, busca-se uma aspa dizendo o contrário e já temos aí o outro lado.

Método tradicional de reportagem. Ouve pesquisadores dizendo que cigarro causa câncer, ouve a Souza Cruz dizendo que isso nunca foi provado e o leitor que escolha em quem acreditar.

Isso passa por apuração. Só que NÃO é.

Foi precisamente essa noção a respeito do papel do repórter que deu proeminência ao senador Joseph McCarthy nos Estados Unidos dos anos 50. Foi a publicação acrítica de suas acusações vazias que levou os EUA a um período de caça às bruxas, bem relatado no filme “Boa Noite e Boa Sorte“. Foi preciso um repórter como Edward Murrow para confrontar suas afirmações com documentos e outros fatos.

Foi precisamente essa noção a respeito do papel do repórter que levou nos anos 60 a uma série de movimentos dentro do jornalismo que propunham novas metodologias de trabalho – do New Journalism ao Jornalismo de Precisão.

Foi precisamente essa noção a respeito do papel do repórter  que a socióloga Gaye Tuchman, num ensaio clássico, chamou de “objetividade como ritual estratégico”.

Passa meio século, avança a tecnologia e voltamos à estaca zero?

O que fazer a respeito?

Cada um tem seu jeito. Eu prefiro ler com atenção informações de várias fontes e tentar checar o que achar mais aberrante. A cabeça é a nossa única arma como leitores.

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Sobre Marcelo

Jornalista, fascinado por dados e pelo que eles revelam de nós.

Publicado em 08/02/2012, em Curadoria e marcado como , , . Adicione o link aos favoritos. 1 comentário.

  1. Marcelo, estamos vivendo tempos muito loucos onde uma afirmação sem dados (mas com “autoridade”) se multiplica como verdade. Tenho acompanhado a questão do exame de ordem da OAB e praticamente só se toma a versão chapa-branca de Ophir Cavalcante como verdade: “Ensino ruim”, “Exame filtra”, “Sociedade pede”. E na verdade, deixar o órgão de classe avaliar quem pode e quem não pode ser advogado é como deixar a chave do galinheiro com a raposa. A pergunta não é se o exame é legal. Isso já foi respondido pelo STF. A pergunta é se ele é justo, pergunta que nenhum jornalista fez ou se aprofundou de verdade. A VEJA fez uma matéria porca, ouvindo Ophir e mais ninguém e ficou por isso. Pois eu digo que há milhares de bons bacharéis que poderiam ser advogados e não há intenção de inclui-los. Vide o artigo do último domingo (15/7/2012) do Elio Gaspari acerca da caixa-preta da OAB. Que o assunto crie raizes pois merece toda a nossa atenção. Grande abraço.

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