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A desconexão entre as duas telas


Estive até agora há pouco na bancada dos tuiteiros do programa Roda Viva. Fazia uns dois anos que eu não ia, mais por falta de tempo do que de convite. É sempre uma experiência gratificante.

Voltei conversando com outro tuiteiro da bancada, o videocaster Marcelo Matheus, sobre como as intervenções dos usuários nas novas mídias acabam sendo mal utilizadas nas mídias tradicionais. Também estava lá na bancada dos tuiteiros a Lara Deus.

O programa foi particularmente interessante.

O entrevistado era o desembargador Nelson Calandra, presidente da Associação dos Magistrados do Brasil, que entrou em debate público com a corregedora nacional de Justiça, Eliana Calmon, sobre os privilégios dos juízes. A ministra afirmou que existem bandidos de toga e que as corregedorias locais, formadas por colegas diretos dos eventuais maus magistrados, não resolvem. O Conselho Nacional de Justiça busca resolver externamente esse tipo de problema. Calandra defende a redução dos poderes do CNJ e, com muito data-vênia, defende os privilégios de que os juízes desfrutam hoje no Brasil. (Ele chegou aos estúdios da TV Cultura com três assessores. Dois zelavam pelo aprumo de seu paletó. O terceiro tirava fotografias.)

Com o experiente repórter Fausto Macedo na bancada, Calandra teve rebatidas afirmações que soavam ensaiadas. Acompanhando na bancada as hashtags #rodaviva e #calandra (esta, trending topic mesmo no dia de um reality show de dondocas), vi muitas outras contestações — várias  fundamentadas, algumas grosseiras, mas é do jogo. O pessoal fala no Twitter o que diz em casa na frente da televisão, como se a segunda tela fosse um sofá de LCD. É mais cru, em alguns sentidos. Mais rico, noutros. É compreensível que as TVs não queiram transmitir tweets que ofendam quem topou ir ao programa. Mas com essa água da bacia também se deixam de lado os interessantes comentários de um público qualificado que comenta a partir de sua experiência com o tema.

Como eu já havia constatado algumas vezes, o programa na TV é um; no Twitter, é outro. Mais quente. Mais polêmico. Mais participativo. Mais vivo, e não apenas “ao vivo”. Os “dois” programas não se conversam, embora para uma parcela grande dos telespectadores eles sejam um só. Possivelmente porque quem decide incluir novas mídias num programa em mídias tradicionais não costuma usá-las pessoalmente, e portanto dificilmente teria elementos para decidir formas menos isoladas de participação. Quem as usa bem dificilmente decide – ao menos por ora.

Assim, os perfis desses meios de comunicação nas mídias sociais são usados para transmitir, muito mais do que para receber – ou seja. têm uma chave de fenda de última geração na mão, orgulham-se de mostrar sua modernidade, mas a utilizam para apertar os parafusos de sempre.

Justiça seja feita: não é apenas no Roda Viva. É em praticamente todos os programas. Não apenas programas. As caixas de comentários em websites costumam ser deixadas à própria sorte – e, facilmente, o nível baixa em escalas abissais. São um problema em toda parte. Mais ou menos como um terreno baldio, que por estar abandonado em pouco tempo acaba virando depósito de lixo. Começa com alguém jogando algo. Ninguém tira dali. Outro passa, vê o lixo, joga o seu também. Dali a pouco, o terreno virou um lixão. Os trolls da Web funcionam do mesmo jeito.

No começo do mês, o jornal Washington Post anunciou que estava criando uma nova e revolucionária ferramenta para tentar civilizar as caixas de comentários: a interação com o ser humano. Os autores das reportagens são encorajados a entrar nas caixas de comentários e dialogar com quem está a fim de diálogo, pedindo suas opiniões.

Uma coisa é ir a um espaço aberto dar uma opinião que ninguém sabe se alguém vai ouvir. Os mais sedentos de atenção acabam subindo o tom – e eu escrevi outro dia um artigo para o Congresso em Foco sobre como isso funciona na arena política. Outra coisa é ver que quem escreveu aquilo que se leu está lá, disposto a ouvir quem tiver algo a dizer. Daí podem surgir outras pautas ou mesmo correções ao que já foi escrito.

Sei na prática – em todos os meus blogs, sempre dialoguei com os leitores que dedicavam um pouco do seu tempo a comentar. Meus blogs nunca foram um sucesso de quantidade de manifestações. Mas sempre foram um sucesso de civilidade. Neles conheci gente inteligente, a quem respeito muito e cuja opinião procuro ouvir. Vieram trolls, também, mas dificilmente voltaram. O meu terreno eu capino.

É certamente difícil integrar exatamente as mídias sociais e a TV (ou jornal ou rádio) neles mesmos. Mas uma integração inteligente pode usar os recursos da segunda tela que o leitor tem na mão ou sobre a mesa (celular, tablet, computador) para facilitar a conexão dos “dois” programas. Como? Aí são outros quinhentos. É uma coisa que está engatinhando, e poucos no Brasil acompanham isso com mais qualidade que meu amigo Tiago Dória.

O que você acha disso? Como espectador, leitor ou produtor de conteúdo, como você acha que essa interação pode funcionar melhor?

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A câmara de eco das notícias-zumbi

Uso o Google Reader como meu leitor de RSS favorito já há alguns anos. Nas épocas de maior voracidade informativa, eu chegava a assinar 700 feeds diferentes. Alguns atualizavam várias vezes por dia, outros só de vez em quando. Sempre fiz questão de não assinar feeds “cheios”, como os feeds com todas as notícias dos portais.

Claro que eu não lia tudo, mas tinha um termômetro bastante completo do jornalismo online brasileiro. Conseguia me irritar muito com algumas práticas. O @viniciusduarte comentou no Twitter uma das que mais me irritam: trombar várias vezes com o mesmo texto, ainda que em feeds diferentes.

Isso acontece especialmente com o material da BBC Brasil. É um material de qualidade, disponível de graça para quem entra no site, mas que praticamente todos os portais republicam. Por contrato, quem vai republicar material da BBC Brasil não pode mudar uma palavra sequer. Geralmente nem o título. Azar o de quem lê vários feeds, enfim.

Acontece com mais frequência em casos de notícias bizarras como esta:

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Dá clique pra caramba, mesmo. Aí todo mundo copia e cola:

Folha.com – Sul-africano diz ser cantor ‘morto’ sequestrado por zumbis

Estadão – Sul-africano diz ser cantor ‘morto’ sequestrado por zumbis

UOL Notícias – Sul-africano diz ser cantor ‘morto’ sequestrado por zumbis

G1 – Sul-africano diz ser cantor ‘morto’ sequestrado por zumbis

OK, o Terra desafinou o coreto, mas deu a mesma matéria:

Terra – Cantor ‘morto’ reaparece e diz ter sido sequestrado por zumbis

Todos eles, honestamente, atribuíram a notícia à BBC. Ninguém pode acusá-los de plágio, apenas de fazerem uma câmara de eco. A coisa começa a ficar complicada quando chega a segunda onda de controlcê-controlvê: a Tribuna da Bahia copiou a notícia e atribuiu ao Terra. Problema da Tribuna da Bahia, ou da BBC, você dirá. Quase tanto faz, porque é uma história bobinha mesmo, sem maiores consequências.

É uma das faces – a face benigna, digamos assim, do que Nick Davies chamou de “churnalismo” no livro “Flat Earth News“. Escrevi a respeito aqui. O problema é que nem todas as faces do churnalismo são assim inocentes.

***

Mas e quando a coisa é mais séria? Bom, aí se cria uma cadeia de verificação difícil de seguir na hora de checar uma informação duvidosa. O problema é o efeito câmara de eco, quando informações-zumbi se transformam em “fatos” pelo simples fato de serem repetidas. As redes sociais criam amplas oportunidades para isso.

Notícia-zumbi foi o que apareceu nos dias que se seguiram à expulsão dos moradores da favela do Pinheirinho, em São José dos Campos.

Eu comentei aqui o assunto em outro post no dia em que a ação ocorria. Nas redes sociais, boatos sobre mortes ocorridas no local se espalharam feito fogo no álcool. Repórteres que eu respeito foram lá e não conseguiram confirmar nenhum deles. Sofreram muitas restrições para chegar ao local, mas tudo o que conseguiram apurar foi que havia boatos de mortes. A operação parece ter sido um desastre em termos de respeito aos direitos humanos. Não faltaram elementos verificáveis para publicar e mostrar a dimensão da coisa. Não precisava haver mortes para aquilo ser um absurdo.

Morte é uma coisa muito séria, não é uma questão de opinião. Um repórter que preza seu trabalho apura antes de publicar uma coisa tão grave. Até porque no meio da confusão é fácil alguém confundir de boa-fé ferido com morto. É trabalhoso, mas dá pra tentar checar: morto costuma ter nome ou família ou amigos, que costuma dar pela falta do parente. O melhor procedimento para checar é tentar levantar uma lista de desaparecidos e ir atrás de quem é próximo deles. Era assim que se fazia na ditadura, foi assim que se fez quando desabaram os prédios no Rio. Soube que alguns colegas com quem trabalhei na Folha fizeram isso, e todos os dados como desaparecidos estavam próximos a suas famílias.

No dia da ação, uma parcela ruidosa da tuitosfera acusava a imprensa de estar “escondendo” as mortes. Virou Fla-Flu.

Essa parcela incluía alguns repórteres, alguns inclusive a quem também respeito e com quem me dei ao trabalho de dialogar, que julgavam ser dever da imprensa noticiar que houve boatos. Mais ou menos do mesmo jeito como passou a ser dever da imprensa noticiar cada bocejo da Luiza, que estava no Canadá.

Um dia depois da ação, a Agência Brasil – pertencente ao governo – foi o primeiro meio de comunicação mais sério a publicar que houve mortes. Ela atribuía a afirmação à OAB de São José dos Campos:

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Quando se lê a notícia com um pouco mais de atenção, salta aos olhos uma declaração:

“Nós estamos fazendo um levantamento no Instituto Médico-Legal [IML], e tomando as providências para responsabilizar os governantes que fizeram essa barbárie”, disse o advogado. Para bom leitor, isso significa claramente que a OAB também não tinha confirmação sobre as mortes. Se “está fazendo” um levantamento, é porque ainda não concluiu.

Curioso, procurei descobrir no Google quem era o advogado. Seu nome aparecia em notícias de um jornal local como advogado da favela. Achei peculiar: quando deu a entrevista ele usava o chapéu da OAB para dar a grife da Ordem ao boato de domingo, sendo que ele teria acesso suficiente aos moradores para compilar uma lista de desaparecidos. Como advogado das famílias, ele já tinha legitimidade suficiente para dar entrevistas. Não precisava dar a grife da OAB ao boato. Mas qualquer um que conheça minimamente como funciona a lógica de uma redação sabe que um crachá faz toda a diferença.

Como a Agência Brasil disponibiliza seu conteúdo para republicação gratuita, muitos portais foram atrás. Dez minutos depois da publicação, o UOL republicou o texto. Mais tarde no mesmo dia, o portal editaria incluindo apuração própria. Vinte minutos depois da publicação, o Terra dava um título sóbrio, que refletia o grau de incerteza expresso pelo próprio advogado: “OAB apura denúncias de mortes em ação da PM no Pinheirinho“. Uma hora depois da publicação na agência, a Istoé subiu o tom: “OAB de São José dos Campos registra mortes em Pinheirinho“.

No fim, era uma notícia-zumbi.

Ao longo das horas, a OAB de São José dos Campos afirmou que o advogado não tinha autorização para falar em nome da instituição. O UOL registrou que a declaração do advogado não era bem uma confirmação das mortes. Editou a notícia. A Agência Brasil ouviria o outro lado no dia seguinte, registrando que “Autoridades negam que tenha havido mortes durante a desocupação em São José dos Campos“. A revista Fórum conseguiu ouvir o advogado e ele se retratou da declaração.

Isso não acabou com a câmara de eco. Um deserdado da noção chegou a se acorrentar em frente à Rede Globo, anunciando uma greve de fome para ver se a Globo falava que houve mortes no Pinheirinho. Só que não é assim que funciona, né?

Nesta segunda, duas semanas depois da publicação da notícia, a coluna do ouvidor da Agência Brasil registrou o erro:

É comum na rotina jornalística não se averiguar, pelo menos de imediato, a informação quando esta é prestada por uma fonte considerada de fé pública. Talvez, por isso, a notícia veiculada pela Agência Brasil no dia 23 tenha atribuído legitimidade à informação, por ter sido prestada por um representante da OAB. Mas, no caso específico desta notícia, a informação, apesar de declarada por uma voz autorizada, não correspondia à realidade dos fatos. Neste sentido, a Agência Brasil errou ao publicar uma informação que não foi apurada, mesmo que ela tenha sido declarada por uma fonte legitimada.

Isso foi seguido por um texto mais detalhado, incluindo vídeo. Um trecho dá a noção do que ocorreu:

A entrevista foi gravada por uma equipe da TV Brasil que se deslocou para São José dos Campos, mas a parte que denunciava a morte não foi utilizada no noticiário televisivo por falta de confirmação ou comprovação. No entanto, a reportagem da Agência Brasil em São Paulo teve acesso à íntegra da gravação e considerou a informação relevante e suficiente para ser publicada, tendo em vista o advogado ter se apresentado como representante de uma instituição respeitável.

Agência Brasil, embora tenha atendido a exigência de identificação da fonte da informação, não seguiu os demais procedimentos da boa prática de apuração, como recomenda o Manual de Jornalismo da Radiobrás, que ainda está em vigência.

Ou seja: os repórteres pegaram informação fora de contexto, de segunda mão, que aparentemente sequer foi usada por quem captou originalmente, e publicaram sem mais apurar.

Para muitos repórteres, porém, apurar é basicamente ligar o gravador e anotar o que pessoas com cargos dizem. Na dúvida, a responsabilidade pela afirmação recai sobre quem falou e o repórter lava as mãos sobre a veracidade. É verdade que a pessoa com um cargo disse o que está anotado que ela disse, e fica por isso mesmo. Pra muita gente boa já está bom o suficiente para ter o que publicar. Quando é controverso, busca-se uma aspa dizendo o contrário e já temos aí o outro lado.

Método tradicional de reportagem. Ouve pesquisadores dizendo que cigarro causa câncer, ouve a Souza Cruz dizendo que isso nunca foi provado e o leitor que escolha em quem acreditar.

Isso passa por apuração. Só que NÃO é.

Foi precisamente essa noção a respeito do papel do repórter que deu proeminência ao senador Joseph McCarthy nos Estados Unidos dos anos 50. Foi a publicação acrítica de suas acusações vazias que levou os EUA a um período de caça às bruxas, bem relatado no filme “Boa Noite e Boa Sorte“. Foi preciso um repórter como Edward Murrow para confrontar suas afirmações com documentos e outros fatos.

Foi precisamente essa noção a respeito do papel do repórter que levou nos anos 60 a uma série de movimentos dentro do jornalismo que propunham novas metodologias de trabalho – do New Journalism ao Jornalismo de Precisão.

Foi precisamente essa noção a respeito do papel do repórter  que a socióloga Gaye Tuchman, num ensaio clássico, chamou de “objetividade como ritual estratégico”.

Passa meio século, avança a tecnologia e voltamos à estaca zero?

O que fazer a respeito?

Cada um tem seu jeito. Eu prefiro ler com atenção informações de várias fontes e tentar checar o que achar mais aberrante. A cabeça é a nossa única arma como leitores.

Desenvolvedores e canais

Falta muito pouco para a nova fase do Bubot entrar no ar.

O Brasil tem um mercado complicado de tecnologia. Desenvolvedores de Web estão cada vez mais concorridos, e passamos dois meses procurando um que pudesse nos ajudar a finalizar a nova fase. O André Forastieri anunciava a vaga em seus concorridíssimos Twitter e Facebook, mas vinham poucos currículos.

Para finalizar algumas seções, em dezembro, precisamos terceirizar os serviços para… a Índia. É impressionante o preço e a agilidade dos desenvolvedores indianos. O pessoal aqui brincava que deve ser porque eles trabalham dançando:

Agora, estamos com a equipe de desenvolvedores completa e tudo deve sair mais rápido.

***

O Bubot será organizado em torno de canais temáticos onde os usuários poderão acessar informações sobre os assuntos que lhes apaixonam.

Uma coisa que sempre discutimos aqui é: qual é o nível de detalhe que é importante?

Digamos que você era um garoto que, como eu, ouvia Deep Purple e Led Zeppelin.

As informações sobre eles poderiam estar no canal Música. Mas entre elas estariam informações sobre Lady Gaga e a volta do Los Hermanos.

Então podemos fazer uma subdivisão Rock. Mas ainda assim as informações sobre essas bandas velhas estariam diluídas entre dados sobre tantas bandas novas. Taí o Jack White lançando disco novo, por exemplo.

Também podemos criar um canal Classic Rock, embora eu e o Ian Gillan detestemos o termo – que é basicamente a nova roupagem do “dinossauros do rock”, descrição popular na década de 1990.  Também vem uma porção de bandas velhas aí no meio, mas tem mais chance de esse garoto ver vantagem nelas do que em Lady Gaga ou em Jack White.

Será que é esse o caminho? Qual é o ponto em que se abre uma subdivisão do canal Futebol para abrir um canal de um time, por exemplo?

Não vale a pena abrir um canal muito específico sem ter alguma ideia de quem terá interesse nele. Então, no início os canais serão mais gerais. Neles, selecionamos os feeds mais interessantes e de preferência menos óbvios. Nossos robôs recolhem deles as postagens que podem interessar a esse leitor médio.

Como saber quando chegou a hora de abrir um canal mais específico?

Eu pessoalmente lembro com carinho do processo de abertura de novos newsgroups na Usenet, que eu comentei outro dia. Alguém propunha e só se criava se houvesse quórum para uma votação. Isso garante um mínimo de interação dentro do canal. Diferente do que ocorria em várias comunidades do Orkut, por exemplo, que tinham só um ou dois membros já que qualquer um poderia abrir a qualquer momento.

Conte aí nos comentários o que você pensa a respeito. (Mas, de antemão, prometo não criar o canal Deep Purple à revelia dos usuários do Bubot.)

Fatos, boatos, fontes e a importância dos filtros

No momento em que escrevo, a Polícia Militar de São Paulo está numa ação para desocupar a favela do Pinheirinho, em São José dos Campos. Com seis mil moradores sendo despejados, A favela ocupa um terreno que pertence à massa falida das empresas do especulador Naji Nahas, de farta memória.

Quando foi decidido judicialmente que seriam despejados, os moradores improvisaram um exército de Brancaleone para defender suas moradias improvisadas, que rendeu uma das fotos mais impressionantes que já vi no jornalismo brasileiro:

Fatos confirmados: a polícia está inaceitavelmente violenta. Bastante gente foi vista ferida e sangrando. A polícia não deixa jornalistas ou mesmo parlamentares se aproximarem do local.

Boatos: vários. Incluem rumores sobre mortes, nunca confirmadas. Falaram em sete, mas que podiam ser cinco, com algum desconto podiam ser duas ou até mesmo uma. A prefeitura fala em apenas um ferido à bala confirmado – o que é bem menos do que se falou. Muita gente sangrava, mas podia ser por porrada ou bala de borracha. Pode ter morrido alguém? Até pode, mas ninguém conseguiu confirmar. No meio da confusão, é fácil confundir ferido com morto.

Está difícil quem está lá se aproximar, enfim, porque a polícia está pegando pesado. Uma amiga jornalista que está no local teve de respirar gás lacrimogêneo agora à tarde.

Quando um leitor que me acompanha desde os tempos da MTV me pediu pra retuitar uma manifestação contra a “carnificina”, observei de cabeça fria que não dá pra falar em carnificina sem que se saiba de mortes confirmadas. “Isso não melhora a situação, mas também não a piora”, observei. Porque não precisa morrer gente para aquilo ser abusivo.

O leitor ficou irritado: “Não fale do que não sabe!”

Mas era justamente isso que eu fazia. Não falo do que não sei. Conheço alguns jornalistas que estão lá tentando cobrir a questão, tentando saber o que está rolando além da muralha da polícia. São sérios – esse papo de “imprensa golpista” é ridículo. A situação já é feia o suficiente só com o que já se sabe com confirmação.

Morte e prisão não são questões de opinião, enfim, e dar vazão aos boatos mais desvairados não colabora com quem quer repudiar a situação. Pelo contrário: é leviano e desmoraliza quem acusa.

O que eu acho mais complicado é que quem mais se aferra aos boatos é quem mais acusa a imprensa de leviandade. Que ela tem defeitos, tem. Mas quando ela se preocupa em checar antes de publicar, está apenas fazendo seu trabalho. O trabalho, aliás, que noutras circunstâncias essas mesmas pessoas cobram que faça.

Existem boas fontes de fora da imprensa tradicional no local. Vale a pena ficar de olho nelas.

Leonardo Sakamoto, da ONG Repórter Brasil, é um sujeito que nem os mais exaltados chamariam de “golpista”. Em seu Twitter, em nenhum momento ele deu vazão aos boatos. Manifestou preocupação e foi para o local. Foi barrado pela PM, como todos os jornalistas que foram até lá. Quem conhece seu trabalho, em seu blog ou na organização que lidera, sabe que poucos se preocupam tanto quanto ele com as consequências da violência policial. Mas nem por isso ele dá pernas a boatos que carregam nas tintas. Seu comentário mais forte a respeito: “Uma ação como essa nunca poderia ser feita em final de semana por precarizar a defesa. Há leis que impedem isso.”

Outro cara com perfil e preocupações semelhantes às do Sakamoto é Felipe Milanez, profundo conhecedor da causa indígena. Ele também foi ao local. Passou o dia inteiro postando no Twitter fotos da violência que presenciou. Relatou casos de moradores feridos, inclusive um velhinho de 70 anos que acordou apanhando da polícia. Relatou casos de gente presa com truculência. Em nenhum momento deu vazão aos boatos. Contou apenas o que apurou.

O deputado Ivan Valente (PSOL-SP) é outro que foi até o local e foi barrado pela polícia. A boataria do Twitter dava conta de que ele teria sido preso para não falar com os moradores. O site Última Instância foi entrevistá-lo. Nessa entrevista, o deputado negou que tenha sido detido. Ele não teria motivo algum para poupar a polícia de críticas, caso de fato tivesse sido detido.

***

E o que o Bubot tem a ver com isso?

Todo dia, somos bombardeados por informações de todos os lados. Seja da TV, rádio, jornais, sites, redes sociais ou conversas com amigos.

Nos canais do Bubot, fazemos uma seleção das fontes mais interessantes sobre o assunto, representando os pontos de vista mais diversos. Todas misturadas no mesmo lugar, para você ter acesso a relatos que se complementem e formar a sua própria opinião.

Escolhemos com cuidado essas fontes. Popularidade não é um critério muito relevante, nesse sentido. Há dezenas de blogs altamente populares que vivem de reproduzir na base do copy-paste o que saiu em outros. Esses a gente ignora. Preferimos ir direto à fonte.

Mas não nos cobrem compromisso com boatos. Nosso negócio é honestidade intelectual.

O crack da atenção (ou: até onde vale o meme?)

No post anterior, eu fiz uma experiência quase científica.

Na primeira vez em que tuitei o link, dando o título, ele teve uns 20 acessos. Na segunda vez em que tuitei, usei a frase de conclusão – sobre pára-choque de caminhão versus modelo de negócios. Mais uns 30 acessos. Na terceira, chutei o balde e apelei geral:

@msoares Veja o encontro da Luiza do Canadá com o Daniel do BBB: http://bubot.com/9d534

O resultado: 2.175 acessos até agora há pouco.

[EDITADO: Neste post de agora, tuitei com o título e deu 9 acessos. Agora citei os memes. Vejamos.]

Eu nunca tinha feito esse teste. (Até porque, como eu falei no post anterior, eu curtia heavy metal no auge do pagode mauricinho.) Durante anos critiquei portais por cobrirem tanto os reality shows. Porque são assuntos bobos mesmo. Porque essa cobertura se retroalimenta. Porque atenção é escassa, e isso desvia atenção de coisas mais importantes. Etc, etc, etc. Fiquei impressionado pelo resultado. Entendi por que tanta insistência.

Isso basicamente comprova uma coisa importante sobre os memes: eles são algo altamente comunicativo. (Oh!) Isso tem implicações sérias na economia da atenção. Consequências semelhantes às do crack, por um lado, ou parecidas com a de um ônibus, por outro.

O problema é que, tal como o crack, isso dá um resultado muito forte, muito rápido. Tal como o crack, o efeito dura pouco. Para manter o resultado forte, você precisa de mais. E mais. Por isso, o risco ao entrar nessa onda dos memes é acabar virando um “noia”.

No livro “Amusing Ourselves to Death“, de 1985, Neil Postman já alertava sobre isso. A tradução é minha:

“Existem duas maneiras pelas quais o espírito de uma cultura pode ser apequenado. No primeiro – o orwelliano -, a cultura se torna uma prisão. No segundo – o huxleyano -, a cultura se torna um burlesco.”

Postman segue carregando mais ainda nas tintas, e eu não sei se concordo com ele em todo o grau. Acho que não. Tendo a concordar mais com o que Umberto Eco disse em entrevista recente à Época, lembrada pela Nanni Rios: precisamos é desenvolver filtros (e é para isso que o Bubot servirá).

Isso porque, ao mesmo tempo, existem boas justificativas para pegar carona nos memes, dependendo de como se pega carona. São assuntos sobre os quais realmente boa parte do público quer ler. São assuntos que, justamente por sua natureza, rendem reflexões interessantes quando uma boa cabeça entra no assunto (nunca deixo de ler as coisas que o André Forastieri escreve sobre o BBB, por exemplo). Nesse sentido, os memes são um ônibus.

Memes não são necessariamente ruins ou bons por si. São pedaços de informação que se replicam.

James Gleick, no livro “The Information“, traça uma história do conceito de meme (apenas o capítulo relevante saiu na Smithsonian Magazine e foi traduzido no Estadão). Criado pelo biólogo Richard Dawkins, o conceito de meme é mais ou menos o mesmo que um vírus, só que de informação. Ele se replica e se recombina. Gleick observa (também em tradução minha):

“A maior parte da biosfera não pode ver a infosfera; ela é invisível, um universo paralelo que borbulha com habitantes fantasmagóricos. Mas eles não são fantasmas para nós – não mais. Nós, humanos, sozinhos em meio às criaturas orgânicas da Terra, vivemos nos dois mundos ao mesmo tempo. É como se, após coexistir por muito tempo com o não-visto, tivéssemos começado a desenvolver a percepção extrassensorial necessária. Estamos cientes de muitas espécies de informação. Nomeamos seus tipos ironicamente, como se para nos reassegurar de que as compreendemos: mitos urbanos e mentiras-zumbi. Nos as mantemos vivas em centros de dados com ar condicionados. Mas não podemos dominá-las. Quando um jingle gruda em nossos ouvidos, ou uma febre vira a moda de cabeça para baixo, ou um boato domina os assuntos no mundo por meses e some tão rapidamente quanto chegou, quem é o mestre e quem é o escravo?”

Isso significa que, dependendo do uso, memes ganham relevância.

Você pode achar a música do Michel Teló muito tosca, mas ela diz respeito à cultura brasileira e ao momento socioeconômico do seu público de uma maneira muito íntima. Nada fica popular desse jeito muito artificialmente. E por que será, exatamente? Não sei, mas suponho. Em sua simplicidade, numa entrevista para a Folha, ele disse que canta “a realidade da minha galerinha da balada”. Que realmente só quer ouvir “eu te amo” e “open bar”. É o que Tolstói dizia: queres ser universal, canta tua aldeia.

Você pode não entender qual é a graça do meme da Luiza, que estava no Canadá. Não estará sozinho: eu e o André Jaccon, nosso ninja de programação no Bubot, também não entendemos. Mas essa história diz respeito a questões mais amplas também: ostentação, deslumbramento, especulação imobiliária, a própria lógica vazia das celebridades instantâneas ou mesmo, como quiseram as agências de turismo, sobre a mera existência do Canadá. Rendeu até demissão de um assessor na Presidência da República.

Em alguns casos, memes são informação. Memes também servem como ônibus de informação, quando ajudam a levar outras ideias adiante. Não fossem o Daniel do BBB e a Luiza do Canadá, o post anterior nunca teria chegado à esmagadora maioria dos que leram. Mas memes também podem virar crack informativo, quando usados em si e por si.

Se ignorar completamente, por princípio, perde-se informações que podem ser relevantes. Se mergulhar de cabeça, perde-se o foco no que é importante e vira um dreno de atenção. Nas palavras do mestre André Forastieri:

Assistir ou não o BBB é como ouvir ou não Michel Teló, ou questionar a eterna popularidade praiana de cerveja e picolé. Assuntar sua validade estética é discutir o sexo dos anjos. O BBB é um vendaval sazonal, como o El Niño. Sopra forte todo verão. Tentar fugir ou ignorar é fútil.

Gostaria de ouvir sua opinião. Qual é a medida para você?

Conte aqui nos comentários.

O campo de batalha da Web é o seu tempo

No Bubot, uma de nossas preocupações principais é como oferecer bons filtros para os usuários pouparem seu tempo na internet. Dois assuntos altamente comentados no Twitter ilustram um pouco onde queremos chegar com isso.

Ontem, durante o dia todo, vários amigos tuiteiros passaram fazendo piadinhas com o nome de uma garota que foi morar no exterior. A frase dita pelo pai da garota num comercial de empreiteira no Nordeste virou meme. Embora a maior parte das brincadeiras tenha sido em tom crítico, certamente os publicitários que fizeram a campanha estouraram champanhe ontem. Viralizou. Em menos de duas horas já tinha portal noticiando que a família anunciou a volta da garota ao Brasil. Aposto que vai ser um evento de repercussão nacional a chegada dela ao aeroporto.

Ao longo do domingo e segunda, o Twitter foi inundado de mensagens a respeito do que acontecia sob os edredons de um programa de alta audiência. Foi abuso sexual ou não? Deu polícia e tal. Houve portais que resolveram transformar isso em seu único assunto durante três dias. Resultado: 80% a mais de audiência para o programa criticado. Oitenta. Por. Cento. A. Mais. Sucesso, sem dúvida.

Existe um conceito que pouca gente entende na internet: o da economia da atenção (surgido neste livro interessantíssimo, há 11 anos). Há um bom artigo no Read/Write Web a respeito, mas vale a pena dar uma olhada no que significa em bom português.

O princípio fundamental da economia é que os desejos são infinitos mas os recursos são escassos. A economia é a ciência severa da escassez. Num mundo em que as formas de deixar o tempo passar são abundantes, o recurso mais escasso é o seu tempo.

Assim como na economia de reais você pode decidir se vai à balada ou se bota o dinheiro na poupança para usar depois, na economia da atenção você decide a todo instante o que fazer com seu tempo. Você pode assistir TV ou ler um livro ou curtir a família. Você pode prestar atenção no seu trabalho ou retuitar memes da internet.

“Tempo é dinheiro” é uma equação inversamente proporcional: se você tem pouco tempo, você gasta mais dinheiro (ir a um compromisso de táxi versus ir de ônibus); se você tem tempo sobrando, gasta menos dinheiro (espera para comprar passagens de avião quando há uma promoção). Geralmente somos mais ricos em tempo do que em dinheiro. Exatamente por isso tendemos a praticamente acender charutos com notas dele.

Você aloca seu tempo usando uma moeda chamada atenção.

Assim como na economia de reais, a atenção “non olet”. Para o lojista do shopping center, não importa como você ganhou seu dinheiro; o que importa é que ele entre no caixa. Na economia da atenção, não importa se a atenção é positiva ou negativa. O que importa é fazer barulho, o que se traduz em cliques, vendas e pontos de Ibope.

Rebecca Black descobriu isso do jeito mais doloroso possível para uma menina de 13 anos. Ela gravou um clipe bobinho, infantil (afinal, qual era a idade dela, mesmo?), feito com a grana dos pais. Caiu na má boca do povo – teve 55 milhões de acessos em menos de um mês, com 90% de avaliações negativas e pilhas de sátiras. Mesmo com tanta vibe ruim, rendia R$ 27 mil por semana com vendas no iTunes e anúncios no YouTube. Em 2011, ela lançou mais um clipe.

Que o diga Avnash Kaushik, um papa da análise de métricas da Web, ao discutir as dificuldades de medir o “engajamento” do público online no livro “Web Analytics 2.0“:

“Dados quantitativos são limitados no sentido em que eles podem medir o grau de engajamento, mas não o tipo de engajamento.”

Ele define grau como um contínuo que vai da apatia (não vi, não cliquei) até o envolvimento acima da média com o objeto (passar o dia inteiro bombando a hashtag). O tipo é que pode ser positivo ou negativo, mas as métricas de Web não verificam isso. O clipe de Rebecca Black teve um alto grau de engajamento, ainda que do tipo negativo. Todos os 55 milhões que o assistiram viram impressões de anúncios do YouTube. Mais de 27 mil pessoas por mês compraram a música. E todos os que assistiram ao reality show no dia da polêmica foram expostos às mensagens do patrocinador. Sucesso absoluto.

Com o que você gasta seu tempo? Já prestou atenção?

Existem algumas ferramentas como o RescueTime, que ficam no seu browser medindo o tempo que você passa em cada tipo de site. Os relatórios dele chegam a ser assustadores.

O tempo é efetivamente jogado fora quando você o gasta com algo de que não gosta. Eu conheço o sabor do prazer mórbido de falar mal das coisas de que não gosto. Afinal, eu era fã de heavy metal em pleno auge do pagode mauricinho dos anos 90, antes mesmo do Tchan.  Mas naquela época falar mal não se traduzia em cliques e trending topics. Que são medidas de sucesso, enfim.

Em bom português: não gosta? Ignore, em vez de ficar criticando. Isso não significa que “é feio criticar”. Significa que a energia que você gasta criticando se traduz em sucesso para os fenômenos que você critica. Gaste seu tempo como se fosse dinheiro: com o que você acha que vale a pena. Porque quem recebe esse tempo muitas vezes o traduz em dinheiro. Critique, sim, o que mereça seu tempo – especialmente se não for capitalizar em cima da sua raiva. Tipo o Stop Online Piracy Act, a lei que pode restringir muito a liberdade na Web (saiba tudo aqui).

Na internet, “sua inveja faz o meu sucesso” não é frase de pára-choque de caminhão. É modelo de negócios.

Como as notícias chegam a você?

Hoje em dia, quem quer passar o dia inteiro lendo notícias não faz mais nada. São muitas fontes.

Ainda assino dois jornais impressos (três, no final de semana) e uma revista (que não vou renovar). Quase não ouço rádio e perdi o hábito de assistir TV há uns 15 anos – só assisto quando algo me interessa muito. Meu método favorito de receber as notícias é usar leitores de RSS. Como tudo o que é bom, porém, isso deve ser usado com moderação.

Durante algum tempo, eu cheguei a acumular mais de 700 feeds, entre fontes primárias (direto da fonte) e secundárias (meios de comunicação). Isso me trazia umas 3 mil notícias por dia. Obviamente, eu não lia todas; passava os olhos e lia o que me interessava. Mas era só eu sair da frente do computador por alguns minutos que o leitor ficava inundado. Final de semana sem olhar o computador, nem pensar: era garantido que segunda eu perderia a manhã inteira fuçando notícias.

O que você lê? Como você lê? Conte pra mim aqui neste formulário:

Como fazer redes produtivas?

Na garagem do Bubot, estamos sempre pensando em como fazer o nosso portal social ter uma utilidade única para os usuários. O que colocar? O que tirar? O que oferecer?

Ontem, me caiu uma ficha interessante a respeito ao ler um livro que ganhei no amigo secreto da firma (“Alex no País dos Números“, de Alex Bellos). Ele menciona a polêmica sobre o livro “The Bell Curve”, lançado em 1994. Foi a primeira polêmica que acompanhei pela internet. Isso me fez lembrar o que era mais legal na melhor rede social que o mundo já teve: a Usenet.

Acuma? Senta, que lá vem história.

Comecei a usar a internet em 1995, no CPD da UFRGS, quando a rede ainda era movida à lenha e acessada em XTs com telas de fósforo verde. Foi lá que peguei gosto por pesquisar online e comecei a descobrir suas possibilidades. Foi lá que aperfeiçoei um pouco meu inglês, no auge dos meus 18/21 anos.

Na época, havia pouco conteúdo em português na rede. Bom, havia pouco conteúdo em geral. O que mais bombava eram os “newsgroups” arquivados na Usenet. Criada em 1979 na Universidade Duke, a Usenet era uma espécie de quadro de avisos global, organizado por temas de interesse, onde pessoas interessadas nos mais diversos assuntos trocavam correspondência. Cumpria um papel semelhante ao de uma central de listas de discussão, mas tinha uma existência “física”. Quem caísse de pára-quedas podia recuperar o fio da meada.

Quando eu entrei, a população da internet era quase toda de universitários e acadêmicos, e o nível dos debates era alto. Formavam-se verdadeiras comunidades em torno de temas muito específicos. Havia um código de conduta para a participação nas discussões. Foi lá que surgiram abreviações como FAQ (Frequently Asked Questions) ou IMHO (in my humble opinion).

Foi na Usenet que, quatro anos antes, Tim Berners-Lee propôs a criação de uma interface gráfica para a rede – o hoje banal www. Também lá, no mesmo ano, um certo Linus Torvalds alertou que tinha um projeto pessoal de criar um sistema operacional colaborativo, melhorado por colaboradores. Agradeça à Usenet se você eventualmente usa um computador com Ubuntu.

A Usenet tinha uma espécie de administração central, e para criar novas comunidades era preciso abrir uma votação. Sem o mínimo de votos, a nova comunidade não seria criada – pra existir uma comunidade, precisa ter gente, certo? Certa vez me abstive de votar na criação de uma comunidade sobre Shakespeare. Quando saiu o resultado, ficou faltando um voto. Eu participava de uma em que malucos do mundo inteiro estudavam gramática de latim. Melhorei muito meu inglês ali, mas de latim mesmo não aprendi nada.

A comunidade mais prolífica formada na Usenet foi uma de fãs de estatísticas de futebol. Arquivada originalmente em rec.sports.soccer.statistics, ela originou uma fundação própria que coleta dados históricos de jogos – a RSSSF (ou rec.sports.soccer.statistics Foundation). Um professor da USP, que pesquisa dados de futebol, faz parte dela desde os primórdios. Este é seu site.

Meus colegas se divertem com minha pequena obsessão nerd, o Deep Purple. Sou o orgulhoso autor de um blog a respeito. A Usenet tem a ver com isso também.

Quando entrei na faculdade, o Deep Purple era basicamente uma coleção de vinis empoeirados na minha estante, que eu já não ouvia com tanta frequência até por não ter com quem conversar a respeito. Quando descobri a Usenet, tudo mudou. Num inglês macarrônico, eu podia até debater o gosto de Ritchie Blackmore por se vestir de mulher.

No início dos anos 90, fãs do Deep Purple criaram uma comunidade sobre a banda. Na hierarquia de conteúdo da Usenet, ela ficou arquivada em alt.music.deep-purple (amd-p, para os íntimos). Foi lá que começou a se formar uma turma de usuários que rapidamente se tornaram referência na banda e entre seus fãs. Eles postavam resenhas de shows, novidades sobre discos, informações sobre bootlegs e tudo mais. Aos 14 anos, eu assinava a revista Bizz para eventualmente ler uma resenha do Forastieri sobre o primeiro show do Purple no Brasil. Quatro anos depois, eu podia ler quase em tempo real as resenhas dos primeiros shows com Steve Morse.

A qualidade do material era garantida pelos participantes. Entre os membros estavam meus amigos Svante Petersson, da Suécia, e Rasmus Heide, da Dinamarca. Também passavam por lá o basec5 (Roger Glover), que contava sobre as gravações da banda, e um tal lordyewden (Jon Lord), que de vez em quando passava para dar pitaco em alguma trivia.

Essa comunidade acabou gerando o primeiro site oficial do Deep Purple, hoje The Highway Star, onde alguns dos posts mais clássicos estão arquivados até hoje. Num deles, do primeiro de abril de 2001, fizeram uma resenha imaginária de um show do Deep Purple velhinho em 2021. Em outro momento histórico, uma paródia de “Burn” saudava o nascimento do filho de um membro da comunidade.

Com a popularização da internet comercial, houve uma orkutização de tudo, e em 2001 a amd-p estava irrespirável. Lord e Glover já não apareciam mais por lá. Qualquer mané com conexão discada podia escrever o que quisesse, e um dia a comunidade foi dividida por um sujeito cujo único assunto, gritado em caixa alta, era “EU GRAVEI O CALIFORNIA JAM EM ESTÉREO”. Depois de um mês, virou piada. Em dois meses, virou trollagem. Depois de algum tempo ninguém mais queria saber da amd-p. Já não chega a gente ter como único assunto  uma única banda, vem esse cara que tem como único assunto um único SHOW?

Democratização é legal, mas é mais legal ainda ter um espaço de conversa desarmado, com jeitão de mesa de bar, sem ninguém tentando te empurrar nem sua própria opinião e nem viagra de procedência duvidosa. Ao longo da década passada, quase ninguém interessante usava mais a Usenet. O spam rolava solto, os  usuários mais legais já tinham seu site, eu criei meu blog. Nesses espaços, ninguém enchia o saco do resto  pra falar de um disco só. A amd-p ainda existe – neste mês teve 10 mensagens, DUAS delas vindo do mala do California Jam (pelo menos ele mudou de assunto, embora fique no offtopic). Mas a graça, o tesão da comunidade, já era há muito tempo.

Esse espírito de comunidade cognitiva só volta a aparecer com a popularidade de redes sociais, como o Orkut, Facebook e Twitter, para se esfacelar pouco depois com a popularização. É o paradoxo da popularização: é legal que entre mais gente na turma, mas a qualidade da discussão vai caindo gradualmente até o pessoal mais legal ir enchendo o saco e caindo fora porque tem mais o que fazer. O processo é cada vez mais rápido.

Esse é um problema sério de comunidades na Web. No início, o pessoal se une pela curiosidade por um mesmo tema. Depois, as personalidades dominam, começam as brigas e a qualidade cai. Como mudar isso? Como fomentar RSSSFs e The Highway Stars? Ou pelo menos como reduzir o atrito da experiência?

É isso que queremos fazer no Bubot, e estamos trabalhando para isso. Contamos com seus insights para melhorar.