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A desconexão entre as duas telas


Estive até agora há pouco na bancada dos tuiteiros do programa Roda Viva. Fazia uns dois anos que eu não ia, mais por falta de tempo do que de convite. É sempre uma experiência gratificante.

Voltei conversando com outro tuiteiro da bancada, o videocaster Marcelo Matheus, sobre como as intervenções dos usuários nas novas mídias acabam sendo mal utilizadas nas mídias tradicionais. Também estava lá na bancada dos tuiteiros a Lara Deus.

O programa foi particularmente interessante.

O entrevistado era o desembargador Nelson Calandra, presidente da Associação dos Magistrados do Brasil, que entrou em debate público com a corregedora nacional de Justiça, Eliana Calmon, sobre os privilégios dos juízes. A ministra afirmou que existem bandidos de toga e que as corregedorias locais, formadas por colegas diretos dos eventuais maus magistrados, não resolvem. O Conselho Nacional de Justiça busca resolver externamente esse tipo de problema. Calandra defende a redução dos poderes do CNJ e, com muito data-vênia, defende os privilégios de que os juízes desfrutam hoje no Brasil. (Ele chegou aos estúdios da TV Cultura com três assessores. Dois zelavam pelo aprumo de seu paletó. O terceiro tirava fotografias.)

Com o experiente repórter Fausto Macedo na bancada, Calandra teve rebatidas afirmações que soavam ensaiadas. Acompanhando na bancada as hashtags #rodaviva e #calandra (esta, trending topic mesmo no dia de um reality show de dondocas), vi muitas outras contestações — várias  fundamentadas, algumas grosseiras, mas é do jogo. O pessoal fala no Twitter o que diz em casa na frente da televisão, como se a segunda tela fosse um sofá de LCD. É mais cru, em alguns sentidos. Mais rico, noutros. É compreensível que as TVs não queiram transmitir tweets que ofendam quem topou ir ao programa. Mas com essa água da bacia também se deixam de lado os interessantes comentários de um público qualificado que comenta a partir de sua experiência com o tema.

Como eu já havia constatado algumas vezes, o programa na TV é um; no Twitter, é outro. Mais quente. Mais polêmico. Mais participativo. Mais vivo, e não apenas “ao vivo”. Os “dois” programas não se conversam, embora para uma parcela grande dos telespectadores eles sejam um só. Possivelmente porque quem decide incluir novas mídias num programa em mídias tradicionais não costuma usá-las pessoalmente, e portanto dificilmente teria elementos para decidir formas menos isoladas de participação. Quem as usa bem dificilmente decide – ao menos por ora.

Assim, os perfis desses meios de comunicação nas mídias sociais são usados para transmitir, muito mais do que para receber – ou seja. têm uma chave de fenda de última geração na mão, orgulham-se de mostrar sua modernidade, mas a utilizam para apertar os parafusos de sempre.

Justiça seja feita: não é apenas no Roda Viva. É em praticamente todos os programas. Não apenas programas. As caixas de comentários em websites costumam ser deixadas à própria sorte – e, facilmente, o nível baixa em escalas abissais. São um problema em toda parte. Mais ou menos como um terreno baldio, que por estar abandonado em pouco tempo acaba virando depósito de lixo. Começa com alguém jogando algo. Ninguém tira dali. Outro passa, vê o lixo, joga o seu também. Dali a pouco, o terreno virou um lixão. Os trolls da Web funcionam do mesmo jeito.

No começo do mês, o jornal Washington Post anunciou que estava criando uma nova e revolucionária ferramenta para tentar civilizar as caixas de comentários: a interação com o ser humano. Os autores das reportagens são encorajados a entrar nas caixas de comentários e dialogar com quem está a fim de diálogo, pedindo suas opiniões.

Uma coisa é ir a um espaço aberto dar uma opinião que ninguém sabe se alguém vai ouvir. Os mais sedentos de atenção acabam subindo o tom – e eu escrevi outro dia um artigo para o Congresso em Foco sobre como isso funciona na arena política. Outra coisa é ver que quem escreveu aquilo que se leu está lá, disposto a ouvir quem tiver algo a dizer. Daí podem surgir outras pautas ou mesmo correções ao que já foi escrito.

Sei na prática – em todos os meus blogs, sempre dialoguei com os leitores que dedicavam um pouco do seu tempo a comentar. Meus blogs nunca foram um sucesso de quantidade de manifestações. Mas sempre foram um sucesso de civilidade. Neles conheci gente inteligente, a quem respeito muito e cuja opinião procuro ouvir. Vieram trolls, também, mas dificilmente voltaram. O meu terreno eu capino.

É certamente difícil integrar exatamente as mídias sociais e a TV (ou jornal ou rádio) neles mesmos. Mas uma integração inteligente pode usar os recursos da segunda tela que o leitor tem na mão ou sobre a mesa (celular, tablet, computador) para facilitar a conexão dos “dois” programas. Como? Aí são outros quinhentos. É uma coisa que está engatinhando, e poucos no Brasil acompanham isso com mais qualidade que meu amigo Tiago Dória.

O que você acha disso? Como espectador, leitor ou produtor de conteúdo, como você acha que essa interação pode funcionar melhor?

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A câmara de eco das notícias-zumbi

Uso o Google Reader como meu leitor de RSS favorito já há alguns anos. Nas épocas de maior voracidade informativa, eu chegava a assinar 700 feeds diferentes. Alguns atualizavam várias vezes por dia, outros só de vez em quando. Sempre fiz questão de não assinar feeds “cheios”, como os feeds com todas as notícias dos portais.

Claro que eu não lia tudo, mas tinha um termômetro bastante completo do jornalismo online brasileiro. Conseguia me irritar muito com algumas práticas. O @viniciusduarte comentou no Twitter uma das que mais me irritam: trombar várias vezes com o mesmo texto, ainda que em feeds diferentes.

Isso acontece especialmente com o material da BBC Brasil. É um material de qualidade, disponível de graça para quem entra no site, mas que praticamente todos os portais republicam. Por contrato, quem vai republicar material da BBC Brasil não pode mudar uma palavra sequer. Geralmente nem o título. Azar o de quem lê vários feeds, enfim.

Acontece com mais frequência em casos de notícias bizarras como esta:

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Dá clique pra caramba, mesmo. Aí todo mundo copia e cola:

Folha.com – Sul-africano diz ser cantor ‘morto’ sequestrado por zumbis

Estadão – Sul-africano diz ser cantor ‘morto’ sequestrado por zumbis

UOL Notícias – Sul-africano diz ser cantor ‘morto’ sequestrado por zumbis

G1 – Sul-africano diz ser cantor ‘morto’ sequestrado por zumbis

OK, o Terra desafinou o coreto, mas deu a mesma matéria:

Terra – Cantor ‘morto’ reaparece e diz ter sido sequestrado por zumbis

Todos eles, honestamente, atribuíram a notícia à BBC. Ninguém pode acusá-los de plágio, apenas de fazerem uma câmara de eco. A coisa começa a ficar complicada quando chega a segunda onda de controlcê-controlvê: a Tribuna da Bahia copiou a notícia e atribuiu ao Terra. Problema da Tribuna da Bahia, ou da BBC, você dirá. Quase tanto faz, porque é uma história bobinha mesmo, sem maiores consequências.

É uma das faces – a face benigna, digamos assim, do que Nick Davies chamou de “churnalismo” no livro “Flat Earth News“. Escrevi a respeito aqui. O problema é que nem todas as faces do churnalismo são assim inocentes.

***

Mas e quando a coisa é mais séria? Bom, aí se cria uma cadeia de verificação difícil de seguir na hora de checar uma informação duvidosa. O problema é o efeito câmara de eco, quando informações-zumbi se transformam em “fatos” pelo simples fato de serem repetidas. As redes sociais criam amplas oportunidades para isso.

Notícia-zumbi foi o que apareceu nos dias que se seguiram à expulsão dos moradores da favela do Pinheirinho, em São José dos Campos.

Eu comentei aqui o assunto em outro post no dia em que a ação ocorria. Nas redes sociais, boatos sobre mortes ocorridas no local se espalharam feito fogo no álcool. Repórteres que eu respeito foram lá e não conseguiram confirmar nenhum deles. Sofreram muitas restrições para chegar ao local, mas tudo o que conseguiram apurar foi que havia boatos de mortes. A operação parece ter sido um desastre em termos de respeito aos direitos humanos. Não faltaram elementos verificáveis para publicar e mostrar a dimensão da coisa. Não precisava haver mortes para aquilo ser um absurdo.

Morte é uma coisa muito séria, não é uma questão de opinião. Um repórter que preza seu trabalho apura antes de publicar uma coisa tão grave. Até porque no meio da confusão é fácil alguém confundir de boa-fé ferido com morto. É trabalhoso, mas dá pra tentar checar: morto costuma ter nome ou família ou amigos, que costuma dar pela falta do parente. O melhor procedimento para checar é tentar levantar uma lista de desaparecidos e ir atrás de quem é próximo deles. Era assim que se fazia na ditadura, foi assim que se fez quando desabaram os prédios no Rio. Soube que alguns colegas com quem trabalhei na Folha fizeram isso, e todos os dados como desaparecidos estavam próximos a suas famílias.

No dia da ação, uma parcela ruidosa da tuitosfera acusava a imprensa de estar “escondendo” as mortes. Virou Fla-Flu.

Essa parcela incluía alguns repórteres, alguns inclusive a quem também respeito e com quem me dei ao trabalho de dialogar, que julgavam ser dever da imprensa noticiar que houve boatos. Mais ou menos do mesmo jeito como passou a ser dever da imprensa noticiar cada bocejo da Luiza, que estava no Canadá.

Um dia depois da ação, a Agência Brasil – pertencente ao governo – foi o primeiro meio de comunicação mais sério a publicar que houve mortes. Ela atribuía a afirmação à OAB de São José dos Campos:

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Quando se lê a notícia com um pouco mais de atenção, salta aos olhos uma declaração:

“Nós estamos fazendo um levantamento no Instituto Médico-Legal [IML], e tomando as providências para responsabilizar os governantes que fizeram essa barbárie”, disse o advogado. Para bom leitor, isso significa claramente que a OAB também não tinha confirmação sobre as mortes. Se “está fazendo” um levantamento, é porque ainda não concluiu.

Curioso, procurei descobrir no Google quem era o advogado. Seu nome aparecia em notícias de um jornal local como advogado da favela. Achei peculiar: quando deu a entrevista ele usava o chapéu da OAB para dar a grife da Ordem ao boato de domingo, sendo que ele teria acesso suficiente aos moradores para compilar uma lista de desaparecidos. Como advogado das famílias, ele já tinha legitimidade suficiente para dar entrevistas. Não precisava dar a grife da OAB ao boato. Mas qualquer um que conheça minimamente como funciona a lógica de uma redação sabe que um crachá faz toda a diferença.

Como a Agência Brasil disponibiliza seu conteúdo para republicação gratuita, muitos portais foram atrás. Dez minutos depois da publicação, o UOL republicou o texto. Mais tarde no mesmo dia, o portal editaria incluindo apuração própria. Vinte minutos depois da publicação, o Terra dava um título sóbrio, que refletia o grau de incerteza expresso pelo próprio advogado: “OAB apura denúncias de mortes em ação da PM no Pinheirinho“. Uma hora depois da publicação na agência, a Istoé subiu o tom: “OAB de São José dos Campos registra mortes em Pinheirinho“.

No fim, era uma notícia-zumbi.

Ao longo das horas, a OAB de São José dos Campos afirmou que o advogado não tinha autorização para falar em nome da instituição. O UOL registrou que a declaração do advogado não era bem uma confirmação das mortes. Editou a notícia. A Agência Brasil ouviria o outro lado no dia seguinte, registrando que “Autoridades negam que tenha havido mortes durante a desocupação em São José dos Campos“. A revista Fórum conseguiu ouvir o advogado e ele se retratou da declaração.

Isso não acabou com a câmara de eco. Um deserdado da noção chegou a se acorrentar em frente à Rede Globo, anunciando uma greve de fome para ver se a Globo falava que houve mortes no Pinheirinho. Só que não é assim que funciona, né?

Nesta segunda, duas semanas depois da publicação da notícia, a coluna do ouvidor da Agência Brasil registrou o erro:

É comum na rotina jornalística não se averiguar, pelo menos de imediato, a informação quando esta é prestada por uma fonte considerada de fé pública. Talvez, por isso, a notícia veiculada pela Agência Brasil no dia 23 tenha atribuído legitimidade à informação, por ter sido prestada por um representante da OAB. Mas, no caso específico desta notícia, a informação, apesar de declarada por uma voz autorizada, não correspondia à realidade dos fatos. Neste sentido, a Agência Brasil errou ao publicar uma informação que não foi apurada, mesmo que ela tenha sido declarada por uma fonte legitimada.

Isso foi seguido por um texto mais detalhado, incluindo vídeo. Um trecho dá a noção do que ocorreu:

A entrevista foi gravada por uma equipe da TV Brasil que se deslocou para São José dos Campos, mas a parte que denunciava a morte não foi utilizada no noticiário televisivo por falta de confirmação ou comprovação. No entanto, a reportagem da Agência Brasil em São Paulo teve acesso à íntegra da gravação e considerou a informação relevante e suficiente para ser publicada, tendo em vista o advogado ter se apresentado como representante de uma instituição respeitável.

Agência Brasil, embora tenha atendido a exigência de identificação da fonte da informação, não seguiu os demais procedimentos da boa prática de apuração, como recomenda o Manual de Jornalismo da Radiobrás, que ainda está em vigência.

Ou seja: os repórteres pegaram informação fora de contexto, de segunda mão, que aparentemente sequer foi usada por quem captou originalmente, e publicaram sem mais apurar.

Para muitos repórteres, porém, apurar é basicamente ligar o gravador e anotar o que pessoas com cargos dizem. Na dúvida, a responsabilidade pela afirmação recai sobre quem falou e o repórter lava as mãos sobre a veracidade. É verdade que a pessoa com um cargo disse o que está anotado que ela disse, e fica por isso mesmo. Pra muita gente boa já está bom o suficiente para ter o que publicar. Quando é controverso, busca-se uma aspa dizendo o contrário e já temos aí o outro lado.

Método tradicional de reportagem. Ouve pesquisadores dizendo que cigarro causa câncer, ouve a Souza Cruz dizendo que isso nunca foi provado e o leitor que escolha em quem acreditar.

Isso passa por apuração. Só que NÃO é.

Foi precisamente essa noção a respeito do papel do repórter que deu proeminência ao senador Joseph McCarthy nos Estados Unidos dos anos 50. Foi a publicação acrítica de suas acusações vazias que levou os EUA a um período de caça às bruxas, bem relatado no filme “Boa Noite e Boa Sorte“. Foi preciso um repórter como Edward Murrow para confrontar suas afirmações com documentos e outros fatos.

Foi precisamente essa noção a respeito do papel do repórter que levou nos anos 60 a uma série de movimentos dentro do jornalismo que propunham novas metodologias de trabalho – do New Journalism ao Jornalismo de Precisão.

Foi precisamente essa noção a respeito do papel do repórter  que a socióloga Gaye Tuchman, num ensaio clássico, chamou de “objetividade como ritual estratégico”.

Passa meio século, avança a tecnologia e voltamos à estaca zero?

O que fazer a respeito?

Cada um tem seu jeito. Eu prefiro ler com atenção informações de várias fontes e tentar checar o que achar mais aberrante. A cabeça é a nossa única arma como leitores.