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Desenvolvedores e canais

Falta muito pouco para a nova fase do Bubot entrar no ar.

O Brasil tem um mercado complicado de tecnologia. Desenvolvedores de Web estão cada vez mais concorridos, e passamos dois meses procurando um que pudesse nos ajudar a finalizar a nova fase. O André Forastieri anunciava a vaga em seus concorridíssimos Twitter e Facebook, mas vinham poucos currículos.

Para finalizar algumas seções, em dezembro, precisamos terceirizar os serviços para… a Índia. É impressionante o preço e a agilidade dos desenvolvedores indianos. O pessoal aqui brincava que deve ser porque eles trabalham dançando:

Agora, estamos com a equipe de desenvolvedores completa e tudo deve sair mais rápido.

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O Bubot será organizado em torno de canais temáticos onde os usuários poderão acessar informações sobre os assuntos que lhes apaixonam.

Uma coisa que sempre discutimos aqui é: qual é o nível de detalhe que é importante?

Digamos que você era um garoto que, como eu, ouvia Deep Purple e Led Zeppelin.

As informações sobre eles poderiam estar no canal Música. Mas entre elas estariam informações sobre Lady Gaga e a volta do Los Hermanos.

Então podemos fazer uma subdivisão Rock. Mas ainda assim as informações sobre essas bandas velhas estariam diluídas entre dados sobre tantas bandas novas. Taí o Jack White lançando disco novo, por exemplo.

Também podemos criar um canal Classic Rock, embora eu e o Ian Gillan detestemos o termo – que é basicamente a nova roupagem do “dinossauros do rock”, descrição popular na década de 1990.  Também vem uma porção de bandas velhas aí no meio, mas tem mais chance de esse garoto ver vantagem nelas do que em Lady Gaga ou em Jack White.

Será que é esse o caminho? Qual é o ponto em que se abre uma subdivisão do canal Futebol para abrir um canal de um time, por exemplo?

Não vale a pena abrir um canal muito específico sem ter alguma ideia de quem terá interesse nele. Então, no início os canais serão mais gerais. Neles, selecionamos os feeds mais interessantes e de preferência menos óbvios. Nossos robôs recolhem deles as postagens que podem interessar a esse leitor médio.

Como saber quando chegou a hora de abrir um canal mais específico?

Eu pessoalmente lembro com carinho do processo de abertura de novos newsgroups na Usenet, que eu comentei outro dia. Alguém propunha e só se criava se houvesse quórum para uma votação. Isso garante um mínimo de interação dentro do canal. Diferente do que ocorria em várias comunidades do Orkut, por exemplo, que tinham só um ou dois membros já que qualquer um poderia abrir a qualquer momento.

Conte aí nos comentários o que você pensa a respeito. (Mas, de antemão, prometo não criar o canal Deep Purple à revelia dos usuários do Bubot.)

Como fazer redes produtivas?

Na garagem do Bubot, estamos sempre pensando em como fazer o nosso portal social ter uma utilidade única para os usuários. O que colocar? O que tirar? O que oferecer?

Ontem, me caiu uma ficha interessante a respeito ao ler um livro que ganhei no amigo secreto da firma (“Alex no País dos Números“, de Alex Bellos). Ele menciona a polêmica sobre o livro “The Bell Curve”, lançado em 1994. Foi a primeira polêmica que acompanhei pela internet. Isso me fez lembrar o que era mais legal na melhor rede social que o mundo já teve: a Usenet.

Acuma? Senta, que lá vem história.

Comecei a usar a internet em 1995, no CPD da UFRGS, quando a rede ainda era movida à lenha e acessada em XTs com telas de fósforo verde. Foi lá que peguei gosto por pesquisar online e comecei a descobrir suas possibilidades. Foi lá que aperfeiçoei um pouco meu inglês, no auge dos meus 18/21 anos.

Na época, havia pouco conteúdo em português na rede. Bom, havia pouco conteúdo em geral. O que mais bombava eram os “newsgroups” arquivados na Usenet. Criada em 1979 na Universidade Duke, a Usenet era uma espécie de quadro de avisos global, organizado por temas de interesse, onde pessoas interessadas nos mais diversos assuntos trocavam correspondência. Cumpria um papel semelhante ao de uma central de listas de discussão, mas tinha uma existência “física”. Quem caísse de pára-quedas podia recuperar o fio da meada.

Quando eu entrei, a população da internet era quase toda de universitários e acadêmicos, e o nível dos debates era alto. Formavam-se verdadeiras comunidades em torno de temas muito específicos. Havia um código de conduta para a participação nas discussões. Foi lá que surgiram abreviações como FAQ (Frequently Asked Questions) ou IMHO (in my humble opinion).

Foi na Usenet que, quatro anos antes, Tim Berners-Lee propôs a criação de uma interface gráfica para a rede – o hoje banal www. Também lá, no mesmo ano, um certo Linus Torvalds alertou que tinha um projeto pessoal de criar um sistema operacional colaborativo, melhorado por colaboradores. Agradeça à Usenet se você eventualmente usa um computador com Ubuntu.

A Usenet tinha uma espécie de administração central, e para criar novas comunidades era preciso abrir uma votação. Sem o mínimo de votos, a nova comunidade não seria criada – pra existir uma comunidade, precisa ter gente, certo? Certa vez me abstive de votar na criação de uma comunidade sobre Shakespeare. Quando saiu o resultado, ficou faltando um voto. Eu participava de uma em que malucos do mundo inteiro estudavam gramática de latim. Melhorei muito meu inglês ali, mas de latim mesmo não aprendi nada.

A comunidade mais prolífica formada na Usenet foi uma de fãs de estatísticas de futebol. Arquivada originalmente em rec.sports.soccer.statistics, ela originou uma fundação própria que coleta dados históricos de jogos – a RSSSF (ou rec.sports.soccer.statistics Foundation). Um professor da USP, que pesquisa dados de futebol, faz parte dela desde os primórdios. Este é seu site.

Meus colegas se divertem com minha pequena obsessão nerd, o Deep Purple. Sou o orgulhoso autor de um blog a respeito. A Usenet tem a ver com isso também.

Quando entrei na faculdade, o Deep Purple era basicamente uma coleção de vinis empoeirados na minha estante, que eu já não ouvia com tanta frequência até por não ter com quem conversar a respeito. Quando descobri a Usenet, tudo mudou. Num inglês macarrônico, eu podia até debater o gosto de Ritchie Blackmore por se vestir de mulher.

No início dos anos 90, fãs do Deep Purple criaram uma comunidade sobre a banda. Na hierarquia de conteúdo da Usenet, ela ficou arquivada em alt.music.deep-purple (amd-p, para os íntimos). Foi lá que começou a se formar uma turma de usuários que rapidamente se tornaram referência na banda e entre seus fãs. Eles postavam resenhas de shows, novidades sobre discos, informações sobre bootlegs e tudo mais. Aos 14 anos, eu assinava a revista Bizz para eventualmente ler uma resenha do Forastieri sobre o primeiro show do Purple no Brasil. Quatro anos depois, eu podia ler quase em tempo real as resenhas dos primeiros shows com Steve Morse.

A qualidade do material era garantida pelos participantes. Entre os membros estavam meus amigos Svante Petersson, da Suécia, e Rasmus Heide, da Dinamarca. Também passavam por lá o basec5 (Roger Glover), que contava sobre as gravações da banda, e um tal lordyewden (Jon Lord), que de vez em quando passava para dar pitaco em alguma trivia.

Essa comunidade acabou gerando o primeiro site oficial do Deep Purple, hoje The Highway Star, onde alguns dos posts mais clássicos estão arquivados até hoje. Num deles, do primeiro de abril de 2001, fizeram uma resenha imaginária de um show do Deep Purple velhinho em 2021. Em outro momento histórico, uma paródia de “Burn” saudava o nascimento do filho de um membro da comunidade.

Com a popularização da internet comercial, houve uma orkutização de tudo, e em 2001 a amd-p estava irrespirável. Lord e Glover já não apareciam mais por lá. Qualquer mané com conexão discada podia escrever o que quisesse, e um dia a comunidade foi dividida por um sujeito cujo único assunto, gritado em caixa alta, era “EU GRAVEI O CALIFORNIA JAM EM ESTÉREO”. Depois de um mês, virou piada. Em dois meses, virou trollagem. Depois de algum tempo ninguém mais queria saber da amd-p. Já não chega a gente ter como único assunto  uma única banda, vem esse cara que tem como único assunto um único SHOW?

Democratização é legal, mas é mais legal ainda ter um espaço de conversa desarmado, com jeitão de mesa de bar, sem ninguém tentando te empurrar nem sua própria opinião e nem viagra de procedência duvidosa. Ao longo da década passada, quase ninguém interessante usava mais a Usenet. O spam rolava solto, os  usuários mais legais já tinham seu site, eu criei meu blog. Nesses espaços, ninguém enchia o saco do resto  pra falar de um disco só. A amd-p ainda existe – neste mês teve 10 mensagens, DUAS delas vindo do mala do California Jam (pelo menos ele mudou de assunto, embora fique no offtopic). Mas a graça, o tesão da comunidade, já era há muito tempo.

Esse espírito de comunidade cognitiva só volta a aparecer com a popularidade de redes sociais, como o Orkut, Facebook e Twitter, para se esfacelar pouco depois com a popularização. É o paradoxo da popularização: é legal que entre mais gente na turma, mas a qualidade da discussão vai caindo gradualmente até o pessoal mais legal ir enchendo o saco e caindo fora porque tem mais o que fazer. O processo é cada vez mais rápido.

Esse é um problema sério de comunidades na Web. No início, o pessoal se une pela curiosidade por um mesmo tema. Depois, as personalidades dominam, começam as brigas e a qualidade cai. Como mudar isso? Como fomentar RSSSFs e The Highway Stars? Ou pelo menos como reduzir o atrito da experiência?

É isso que queremos fazer no Bubot, e estamos trabalhando para isso. Contamos com seus insights para melhorar.